Costumo dizer que o Brasil é uma verdadeira aula sobre a ironia. Por exemplo, o bairro Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Para Santo Agostinho, grosso modo, apenas encontraremos a felicidade - inexistente na Cidade do Homens, ou seja, no nosso mundo - na Cidade de Deus (Paulo Lins utilizou muito bem a ironia explícita de sua cidade no título de seu livro). Outro exemplo, ainda no Rio de Janeiro, é preciso descer para melhorar de - subir na - vida. (o Orfeu de Vinícius de Moraes sobe e não desce ao inferno, a procura de sua Eurídice). Crescemos zombados pela ironia latente de nossas ruas. Já nas bancas de jornal, nos deparamos com a tal, que se personifica nas revistas estampadas por gente além da beleza e da perfeição, por gente "mais feliz do universo" em frente aos mendigos, às pombas e à miséria mal acabada. Em época de eleição, aprendemos que, a cada promessa, uma ironia (seríamos mais sinceros se afirmássemos a nós mesmos: ele apenas está sendo irônico).
E, enquanto brasileira, sempre aprendo um pouco mais sobre esta figura de linguagem ardilosa no meu dia a dia paulistano. Final de semana passado, por exemplo, me deparei no metrô Vergueiro (já citado por mim tantas vezes aqui e aqui) com um cartaz sobremodo elucidativo. Em frente à via de acesso ao metrô (isso mesmo, aquela com uma grande escada, muitos degraus e apenas uma escada rolante) vejo um cartaz enorme ilustrado com o sorriso bonito de um cadeirante sob o título grande: Respeito. No cartaz está escrito algo como: Faz 14 anos que Fábio é portador de deficiência física. Faz 14 anos que ele ganhou um novo amigo, o metrô. ... Fábio acha que o metrô é o meio de transporte mais preparado para pessoas com mobilidade reduzida. Que grande ironia ali, na minha frente! Guardei em mim mais uma lição além de uma grande dúvida: teria o metrô, com aquele grande cartaz, já tomado as "medidas necessárias"?
"Ironia: Emprego de uma palavra com o sentido de seu antônimo" (Dicionário Enciclopédico das ciências da linguagem)
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
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